terça-feira, 26 de março de 2013

Rodeado por Rodán

É sempre no frio que se desdobram os sonhos. Com um chá quente a ilustre visita pondera sobre o que fazer: - "Será que lhe forneço sonhos suaves, sonhos esquecíveis e abrasivos?" - Indaga a si mesma, e continua: - "Posso pegar pesado, fazê-lo acordar no meio da noite, posso explorar suas incertezas e inseguranças..." - Permanece pensativa por uma eternidade e então decide! 

Eu fecho os olhos lentamente...

Vejo diversas cores que transitam sobre um céu anil. Será que flutuo ou padeço sobre o mar? Pareço segurar-me ao chão mas meus braços são leves, como se submerso eu estivesse. "Umi", penso. Porque no meu mundo eu falo outras linguás e entretenho outros pensamentos. As faculdades mentais não são rígidas e minhas preocupações irreais. Reflito, ao ser levado pelo mar que engloba uma fileira de coqueiros que, uma vez submersos, parecem mais em casa do que quando em terra: "Nenhuma preocupação é realmente real". Filosofo de maneira inconsequente e sem propósito nenhum. Até quando tento parecer "profundo" e "pensativo" para mim mesmo acabo em clichés que normalmente abomino. "Não se preocupe com isso", a voz conforta. E eu fecho meus olhos mais uma vez, dessa vez para olhar para as coisas que não consigo enxergar. Vejo pessoas. Ruas cheias delas. Cada uma é única. Cada uma representa uma história que eu não conheço, um livro que nunca irei ler e uma tragédia que nunca compreenderei. Quem são essas pessoas? Porque existem tantas delas? Como pode tudo ser tão único e relevante quando existe tantas coisas únicas e relevantes? "Uma olhou para mim, desvie o olhar". Eu não as conheço, eu não sinto afeição nenhuma por elas mas... Eu sinto que participamos do mesmo mundo. Não no sentido genérico, no literal mesmo. Elas estão aqui no mundo que as águas me trouxeram e eu tenho quase certeza que irão sumir quando eu abrir meus olhos. Com essa constatação eu consigo ficar triste e indiferente ao mesmo tempo. A indiferença é um sentimento animal que os humanos aprenderam a manipular. Veja bem, os animais são indiferentes quando não querem algo ou quando algo simplesmente vai contra a natureza deles. Os humanos conseguem se convencer a serem indiferentes. Seja porque eles repetem um mantra para si mesmos: "Eu sou assim, eu sou assim, eu sou assim..." ou porque uma situação é insuportável se não pela indiferença. De qualquer maneira, a indiferença é u... Ei! Para onde as pessoas foram? Eu estou sozinho, flutuando. Eu sou uma sombra no teto de um celeiro. Rodeado pelos meus pensamentos que ruminam por toda a fazenda. Cada vez mais altos, exigindo comida e cuidados. Quando eu me tornei uma sombra? Quando as pessoas me abandonaram? E por me perguntar demais eu acordo. Dessa vez, "de verdade". Eu olho para o céu estático, azul e sereno com um misto de tranquilidade e inquietação. As cores não são vivas, elas são deslumbrantes e por um momento eu me perco no meu descanso e destrato meu pensamento. A visão turva nunca poderá negar a beleza daquilo que não precisa ser assimilado, apenas sentido.